Os projetos de trabalho são conduzidos tendo por base uma orientação denominada Metodologia de Projetos, ou Pedagogia de Projetos. Essas duas expressões não são, em geral, apresentadas de forma clara e inequívoca na literatura sobre projetos educacionais, gerando quase sempre confusões conceituais que afetam o desempenho relativo ao trabalho com projetos no âmbito educacional.
A distinção entre os conceitos pedagogia e metodologia pode se basear na definição e articulação entre os conceitos de didática e de concepção.
Apesar de uma longa e intensa discussão sobre a definição e os limites da Didática no campo da produção acadêmica[1], persiste uma significativa degeneração (representada por um estado de indistinguibilidade) entre os conceitos mencionados, gerando muitas dificuldades nos processos de produção de trabalhos e pesquisas no campo educacional.
Vemos isso ocorrer freqüentemente nas discussões e proposições relativas à adoção do modelo de projetos no campo do desenvolvimento curricular - englobando propostas designadas como project design, project work, practical work, dentre outras. Para referência a tais propostas ou a seus pressupostos fundamentais, ora encontramos a expressão Pedagogia de Projetos, ora a expressão Metodologia de Projetos - usadas de forma imprecisa e ambígua.
Essa dificuldade de compreensão e distinção entre os conceitos referidos vemos ocorrer constantemente nos processos de desenvolvimento de projetos de pesquisa relativos a monografias e dissertações de mestrado em cursos de pós-graduação. Os processos de produção de tais trabalhos muitas vezes se confundem ou até se estancam em conseqüência dessa falta de clareza e precisão. Nossa experiência de orientação de pesquisas educacionais nos permite afirmar que, na medida em que a demarcação entre os dois conceitos se estabelece, o processo de produção de tais trabalhos torna-se mais seguro e eficiente.
A discussão sobre a demarcação entre as duas dimensões, Pedagogia e Metodologia, parece-nos comparável, ressalvando a escala, à discussão sobre a demarcação entre Ciência e Tecnologia, que ocorre no campo da Filosofia da Ciência.
Concepção, Pedagogia, Didática
Um modelo de interpretação e distinção que, a nosso ver, tem sido útil na definição de posições em relação às dimensões Pedagogia e Metodologia tem como base a definição, articulação e diferenciação entre os conceitos de concepção, pedagogia e didática.
Alguns autores fazem uma diferenciação entre didática e pedagogia, colocando a didática como uma instância que decorre da pedagogia. Para Luckesi (1987), a didática se resume na "...investigação e construção metodológica que torna mais fácil, mais satisfatória e mais eficiente a atividade de ensinar e aprender". E ainda: "A delimitação de uma didática depende da delimitação de quais são os resultados que esperamos e estes por sua vez dependem do suporte teórico que direciona nosso modo de agir, nossas intenções".
Para esse autor, a didática "é o prolongamento operacional, no que se refere ao ensino e aprendizagem, de uma compreensão do mundo que se traduz numa proposta pedagógica". Assim, uma pedagogia inspira uma ou mais didáticas. A didática trata dos procedimentos ou técnicas aplicáveis diretamente na situação de ensino. A pedagogia, por si só, não descreve técnicas didáticas para a sala de aula; isto o faz a didática. A pedagogia inspira e instrui a formulação das técnicas didáticas; trata de diretrizes gerais que se referem ao processo da educação[2]; decorre de um conjunto mais geral de conceitos, que não se referem apenas e especificamente à educação; é, enfim, uma instância que decorre de uma concepção, de uma cosmovisão, de um conjunto estruturado de conceitos e valores mais profundos e abrangentes.
Em geral, essa concepção refere-se a posições que podem ser identificadas com filosofia, ideologia, política. A concepção refere-se aos fundamentos das atividades humanas no seu sentido geral e, portanto, inspira e instrui a formulação de conceitos e diretrizes para a educação (assim como o faz para diretrizes que se referem a outros setores de atividade humana). Um conjunto de diretrizes gerais que pudermos deduzir para orientar a educação, inspirados numa determinada concepção, será uma pedagogia.
Assim, a partir de certas idéias gerais apresentadas a modo de “concepção”, poderemos, por exemplo, deduzir "diretrizes pedagógicas" do tipo: (a) no processo do ensino de ciências é importante o envolvimento da experiência "sensível" do indivíduo (aspectos sensório-motor e das sensações) em relação aos fenômenos estudados; (b) é necessário que o processo de aprendizagem de ciências seja motivado e prazeroso; (c) é importante, no ensino de ciências, buscar a integração com os elementos da história e filosofia da ciência, assim como da arte e da tecnologia. As justificativas e os fundamentos para cada uma dessas diretrizes são dados pela concepção que as inspirou.
Devemos notar que essas diretrizes não informam sobre como proceder especificamente em sala de aula a fim de realizá-las. Professores diferentes, e em situações de ensino diferentes, poderão propor procedimentos diferentes, formulando didáticas diferentes - supostamente não contraditórias, uma vez que decorrem dos mesmos fundamentos.
Podemos, então, estabelecer a relação: Concepção > Pedagogia > Didática.[3]
A expressão "método", por sua vez, associada a esse modelo através do conceito de metodologia, indica-nos um enriquecimento para o significado que devemos dar a um conjunto de técnicas. Para o filósofo da ciência Mário Bunge (1980), o método é "...um procedimento regular, explícito e passível de ser repetido para conseguir-se alguma coisa, seja material ou conceitual". Essa definição sugere-nos pensar que podemos usar diversos procedimentos em sala de aula, mas, se tais procedimentos não puderem ser identificados com as qualidades contidas nessa definição de método, então tais procedimentos não terão adquirido ainda o status de um método didático e, portanto, não constituirão ainda uma proposta metodológica.
Com base nesse esquema, a título de exemplo, podemos usar a expressão "Metodologia de Trabalhos Práticos", ou "Metodologia de Projetos", com o intuito de representar um determinado "método didático" utilizável em sala de aula em uma determinada situação de ensino, sendo esse método instruído por diretrizes pedagógicas explícitas que constituiriam uma "Pedagogia de Projetos".
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[1] Exemplo de texto que discute essa questão: PIMENTA, Selma Garrido (Org.) – Didática e Formação de Professores (2ª Ed.), São Paulo, Cortez, 2.000.
[2] Do Novo Dicionário Aurélio Buarque de Holanda: Didática: 1. A técnica de dirigir e orientar a aprendizagem; técnica de ensino. 2.O estudo dessa técnica. Pedagogia: 1. Teoria e ciência da educação e do ensino. 2. Conjunto de doutrinas, princípios e métodos de educação e instrução que tendem a um objetivo prático. 3. O estudo dos ideais de educação, segundo uma determinada concepção de vida, e dos meios (processos e técnicas) mais eficientes para efetivar estes ideais.4. Profissão ou prática de ensinar.
[3] O símbolo matemático “>“ significa “maior do que”.
[Extraído do livro: MOURA, Dácio G.; BARBOSA, Eduardo F. - Trabalhando com Projetos – Planejamento e Gestão de Projetos Educacionais – Cap. 8, Editora Vozes, Petrópolis-RJ, 2006/07. Texto publicado originalmente em: MOURA, D.G. – A dimensão lúdica no ensino de ciências – atividades práticas como elemento de realização lúdica, tese de doutorado, Faculdade de Educação da USP, São Paulo, 1993].
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